Doença renal aguda

Injúria renal aguda (IRA) · RIFLE, AKIN e KDIGO

Dados de entrada

Creatinina em mg/dL. A classificação usa a elevação em relação à basal (e, quando aplicável, o aumento absoluto em 48 h).

Classificação da IRA

RIFLE
Risk: Cr ≥1,5× basal ou <0,5 mL/kg/h por 6–12 h.
Injury: Cr ≥2× basal ou <0,5 mL/kg/h por 12–24 h.
Failure: Cr ≥3× basal ou Cr ≥4 mg/dL com elevação ≥0,5 ou <0,3 mL/kg/h por >24 h ou anuria >12 h.
Loss: necessidade de terapia de substituição renal por mais de 4 semanas.
End-stage: necessidade de terapia de substituição renal por mais de 3 meses (ESKD).
Critérios baseados em creatinina sérica (e/ou débito urinário). RIFLE = Risk, Injury, Failure, Loss, ESKD.
AKIN
Est. 1: 1,5–2× basal ou ↑≥0,3 em 48 h ou <0,5 mL/kg/h por 6–12 h.
Est. 2: 2–3× basal ou <0,5 mL/kg/h por 12–24 h.
Est. 3: >3× basal ou Cr ≥4 mg/dL com ↑≥0,5 ou <0,3 mL/kg/h por >24 h ou anuria >12 h ou TSR.
Acute Kidney Injury Network. Janela de 48 h para a elevação de 0,3 mg/dL. TSR = terapia de substituição renal.
KDIGO
Est. 1: 1,5–1,9× basal ou ↑≥0,3 em 48 h ou <0,5 mL/kg/h por 6–12 h.
Est. 2: 2,0–2,9× basal ou <0,5 mL/kg/h por 12–24 h.
Est. 3: ≥3× basal ou Cr ≥4 mg/dL ou <0,3 mL/kg/h por ≥24 h ou anuria ≥12 h ou TSR.
Kidney Disease: Improving Global Outcomes. Unifica e refina os critérios de RIFLE e AKIN.
Destaque: A classificação KDIGO reúne os pontos fortes dos sistemas anteriores (RIFLE e AKIN) e apresenta eficácia superior na previsão de desfechos clínicos e de mortalidade.

Sobre a classificação da injúria renal aguda (IRA)

A lesão renal aguda (IRA) é uma queda abrupta da função renal, definida e estadiada por dois eixos independentes: a elevação da creatinina sérica em relação à basal e a redução do débito urinário. Historicamente três sistemas padronizaram esse estadiamento — RIFLE (2004), AKIN (2007) e KDIGO (2012). Esta ferramenta aplica os três critérios simultaneamente aos mesmos dados, permitindo comparar as classificações. O KDIGO unifica e refina os anteriores e é hoje a referência mais utilizada, com melhor desempenho na previsão de desfechos e mortalidade.

Como calcular

Informe a creatinina basal e a atual (mg/dL) e, se disponível, selecione a faixa de débito urinário ou o status de diálise. Cada sistema é estadiado por dois caminhos e a classificação final assume sempre o estágio mais alto entre o eixo da creatinina e o do débito urinário — a alteração mais grave prevalece. O critério de aumento absoluto de ≥0,3 mg/dL vale para uma janela de 48 h (AKIN e KDIGO). A necessidade de terapia de substituição renal enquadra automaticamente como Failure/estágio 3; no RIFLE, diálise por mais de 4 semanas define Loss e por mais de 3 meses, End-stage.

Como interpretar

No KDIGO, o estágio cresce com a gravidade da lesão. Basta preencher um dos critérios (creatinina ou débito) para enquadrar o estágio correspondente:

EstágioCreatininaDébito urinário
11,5–1,9× basal ou ↑≥0,3 mg/dL/48 h<0,5 mL/kg/h · 6–12 h
22,0–2,9× basal<0,5 mL/kg/h · 12–24 h
3≥3× basal, Cr ≥4 mg/dL ou TSR<0,3 mL/kg/h · ≥24 h ou anúria ≥12 h

O RIFLE nomeia os mesmos limiares como Risk (≥1,5×), Injury (≥2×) e Failure (≥3× ou Cr ≥4 mg/dL com elevação ≥0,5), acrescentando as categorias de perda de função Loss e End-stage. Estágios mais altos associam-se a maior mortalidade e maior chance de necessidade de diálise, servindo de gatilho para revisão de nefrotóxicos, ajuste de doses e avaliação especializada.

Quando usar e limitações

O estadiamento pressupõe uma creatinina basal confiável; na sua ausência, ela costuma ser estimada, o que pode super ou subestimar a lesão. A creatinina é influenciada por massa muscular, sepse, hidratação e diluição por fluidos, além de subir com atraso em relação à queda real da filtração — daí o valor de também avaliar o débito urinário. A classificação descreve gravidade e não etiologia: não distingue causa pré-renal, renal intrínseca ou pós-renal, nem substitui o julgamento clínico e a investigação do fator desencadeante.

Referência: Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Acute Kidney Injury Work Group. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl. 2012;2(1):1-138. · Critérios RIFLE (Bellomo R et al. Crit Care. 2004;8(4):R204-R212) e AKIN (Mehta RL et al. Crit Care. 2007;11(2):R31).