(Perda Sanguínea Máxima Permitida)
Choque e Hemorragia · Paciente pediátrico (não neonato)
O volume sanguíneo estimado (EBV) varia com a idade. MABL = (peso × EBV) × (Hct inicial − Hct desejado) / Hct inicial.
(3 mL por mL de perda sanguínea)
As diretrizes de transfusão para pacientes pediátricos não neonatais são semelhantes às do adulto. No cálculo da necessidade de reposição sanguínea, deve-se considerar a perda sanguínea máxima permitida (MABL) que o paciente tolera mantendo um hematócrito aceitável.
A MABL considera o efeito da idade, do peso e do hematócrito inicial no volume sanguíneo. Os volumes por quilograma são apenas estimativas.Se a perda for menor ou igual à MABL e não houver perda significativa adicional esperada no pós-operatório, em geral não é necessária transfusão de concentrado de hemácias (CH). A decisão de transfundir deve ser guiada pelo débito urinário, frequência cardíaca, frequência respiratória e estabilidade cardiovascular. O desenvolvimento de acidose láctica é um sinal tardio de capacidade de transporte de oxigênio inadequada.
Se a criança atingir a MABL e ainda estiver sangrando durante a cirurgia, a reposição devera continuar com concentrado de hemácias em quantidade suficiente para manter o hematócrito na faixa de 20% a 25%.
A perda sanguínea máxima permitida (MABL), também chamada de perda sanguínea aceitável (ABL), estima o volume de sangue que o paciente pode perder no intraoperatório antes que o hematócrito caia abaixo de um limite previamente escolhido — ponto a partir do qual se passa a considerar a transfusão de concentrado de hemácias. É uma ferramenta de planejamento pré e intraoperatório, particularmente útil em pediatria, onde o volume sanguíneo absoluto é pequeno e uma perda modesta em mililitros já representa fração relevante da volemia.
O cálculo parte do volume sanguíneo estimado (EBV), que varia com a idade e é multiplicado pelo peso para obter a volemia. Sobre esse valor aplica-se a queda relativa de hematócrito tolerada: MABL = (peso × EBV) × (Hct inicial − Hct desejado) / Hct inicial. O resultado é o volume de perda que leva o hematócrito do valor inicial ao valor desejado, assumindo reposição volêmica isovolêmica. A calculadora também estima a reposição com 3 mL de Ringer lactato por mL de perda sanguínea (3 × MABL), refletindo a distribuição do cristaloide entre os compartimentos intra e extravascular.
| Faixa etária | EBV (mL/kg) |
|---|---|
| Pré-termo | 110 |
| Recém-nascido a termo | 90 |
| 3–12 meses | 75 |
| >1 ano | 70 |
Exemplo: para uma criança de 15 kg com EBV de 70 mL/kg cujo hematócrito de 38% não se deseja deixar cair abaixo de 25%, a MABL fica em torno de 359 mL, com reposição estimada de cerca de 1078 mL de Ringer lactato.
O número em si não é um gatilho de transfusão, e sim o teto de perda compatível com o hematócrito mínimo escolhido. Enquanto a perda medida permanece abaixo da MABL, a normovolemia costuma ser mantida apenas com cristaloide ou coloide, sem hemácias. Quanto mais baixo o hematócrito aceitável, maior a MABL calculada — por isso a definição desse piso é decisiva. Na criança previamente hígida, admite-se com frequência um hematócrito de 20% a 25% como limite inferior, mas a conduta deve ser individualizada e acompanhada pela evolução clínica, não apenas pelo volume estimado.
A MABL é útil no planejamento de procedimentos com sangramento significativo esperado, orientando quando antecipar reserva e reposição de hemácias. Os volumes por quilograma são estimativas: a volemia real varia com composição corporal, prematuridade e cardiopatia, e a fórmula pressupõe diluição linear e reposição isovolêmica, simplificação que se afasta da cinética real do hematócrito em grandes volumes. O cálculo também não contempla coagulopatia dilucional nem consumo de plaquetas e fatores durante transfusão maciça. Serve como referência quantitativa, não substitui a medida seriada de hematócrito/hemoglobina nem o julgamento clínico à beira do leito; confira sempre o protocolo de transfusão do seu serviço.
Referência: Gross JB. Estimating allowable blood loss: corrected for dilution. Anesthesiology. 1983;58(3):277-280. · Coté CJ, Lerman J, Anderson BJ. A Practice of Anesthesia for Infants and Children. 6ª ed. Elsevier; 2019.